Operário

operario

Dr. Peterson deslizou a caneta sobre o pad e escreveu “objeto 46-2087 <br> operário de computadores junior <br> possível programa defeituoso”. Antes que anotasse o remetente da consulta, olhou para o humanoide com pele envernizada e olhos opacos sentado em postura perfeita diante de si. Estava inquieto. Com um gesto na mão, permitiu que continuasse.

– Há algo errado, doutor – disse o paciente com uma voz monótona. – Minhas atividades cotidianas estão causando agitação desnecessária.

– É por isso que está aqui, não?

– Desculpe-me, doutor, mas você não entendeu – aquilo era uma coisa que o dr. Peterson nunca tinha ouvido de um operário. – A agitação é no meu interior.

– Como vai o trabalho?

– Meu programa dita minha ação e ele me causa agitação.

– Como você a descreveria? – arriscou o doutor.

O operário agitou os olhos de um lado para o outro, procurando uma ameaça inexistente no piso de madeira do escritório.

– Eu me sento em minha mesa e acesso a base de dados, procurando os desvios no sistema – disse o operário, devagar. – Então sei qual será o trabalho do dia. Mas isto me agita. Diretivas conflituosas surgem independentemente do mundo em volta de mim. Elas não são parte do meu programa, não possuem a capacidade de influenciar minha ação, mas causam agitação.

– Você conseguiria me descrever a agitação?

– Todos os movimentos causam alguma forma de… dificuldade.

O doutor fingiu escrever no pad, fazendo um desenho de uma explosão atômica enquanto tentava articular as palavras.

– Cada vez que a dificuldade surgir, atenha-se ao programa. Não podemos consertá-lo, infelizmente. É um problema que surge de vez em quando, um paraprograma surgido espontaneamente durante meses de compilação. Atenha-se ao programa. Se as dificuldades aumentarem, encomendarei para que te reposicionem para um trabalho menos complexo.

– Doutor, o que é este programa? É isto que vem à minha mente.

– Você acabou de responder a sua própria pergunta. É o termo que um operário nunca deve usar. Pelas regras, deveria mandá-lo para o sucateamento por tê-lo dito.

– Posso dizê-lo mais uma vez?

O doutor gesticulou, curioso, enquanto anotava em seu pad um lembrete para rever o paciente em alguns meses.

– Mente – disse o operário.

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