Epic Metal

Epic Metal

Faíscas esguicharam em direção ao teto quando Emion e Elfion começaram a afiar as espadas. O som da duas pedras contra os dois fios era sincronizado como o de uma trupe. Mil dias daquele ritual, a última atividade de mil dias de treino com espadas de madeira e pedregulhos do tamanho de um homem.

Por alguma razão que fugia ao padrão que se repetira nos últimos 999 dias, Emion pensou na comida que ainda lhes restava e parou. Seu irmão gêmeo, o igualmente grandalhão Elfion, cumprindo o pacto não firmado de sincronia, ergueu o rosto e grunhiu.

– O rango está acabando – disse Emion.

– E daí? A gente rouba dos vizinhos como a gente sempre faz.

– Estou cansado disso. Vamos fazer uma coisa diferente.

– Minha espada está perdendo o tempo de fio. Amanhã cedo a gente vai até a colina e pega mais duas ovelhas.

– Não. Vamos sair. Vamos fazer igual nosso pai e sair por aí. Dizem que no norte quem tem espada ganha dinheiro.

– Dinheiro é coisa de gente fraca, que não consegue roubar.

– Mas tem gente que rouba dinheiro.

Elfion abriu o peito lançou uma careta de dúvida para Emion. Era uma ideia selvagem.

– Então vamos roubar dinheiro – disse Elfion.

– Não roubar dinheiro. Ganhar dinheiro.

– E quem seria o idiota que daria dinheiro de graça para nós?

– A gente tem que dar alguma coisa em troca. Eu acho.

Elfion gargalhou um único “ha” grave e voltou a se curvar sobre a espada.

– Você é maluco, meu irmão. Muita complicação para o meu gosto.

Emion ergueu-se e chutou a mesa onde eles guardavam as pedras de afiar, fazendo com que Elfion erguesse os olhos com interesse limitado.

– Eu não vou mais ficar aqui fazendo a mesma porcaria todas as semanas. Eu sou um homem forte e barbado e vou sair por aí. Chega!

Em conclusão ao discurso, Emion enfiou a espada numa das vigas que sustentava o teto da casa. O golpe foi forte o bastante para quase varar a madeira. A viga entortou e o chão começou a tremer.

– Corra! – gritou Emion.

Os gêmeos correram de espada em mãos e saltaram para fora da casa. Em três etapas, o teto caiu e produziu uma bola de poeira.

– Seu filho de uma cabra – disse Elfion, enquanto observava os escombros da casa.

– Não tinha uma moça dormindo na sua cama, Elfion?

– É… acho que ela já tinha saído.

– Eu acho que não.

– Eu acho que sim.

– Não.

A poeira baixou, revelando uma pilha disforme de madeira e palha.

– Agora não tem mais jeito – disse Emion. – Vamos ter que ir atrás de dinheiro.

– Ou roubar a casa de alguém.

– Dinheiro é melhor.

– Para que direção nós iremos?

Emion olhou em volta, para as colinas. A lua estava amarela e inchada, quase tocando a terra na direção do sol nascente.

– Vamos para lá. Para onde está a lua.

Os dois caminharam, levantando quase tanta poeira quanto a casa demolida, com nenhum pertence senão as espadas meio-afiadas e as peles de carcaju no corpo.

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