A Garagem

garagem

Estou sozinho na garagem. Posso ver o homem de capuz preto por entre as pilastras. Faz horas que está me seguindo. Seus passos ecoam os meus. Ele mantém uma distância segura.

No segundo andar, há um homem de sorriso branco, paletó-azul escuro e uma maleta. Estica ainda mais o sorriso ao me ver e estende a mão para me cumprimentar. Abre a maleta enquanto fala. Eu checo sobre meu ombro a cada três frases do vendedor. O homem de capuz preto me observa por trás de um fusca velho.

“Agora esta aqui”, ele tira uma cápsula negra do tamanho de um supositório da maleta, “é só para quem tem disposição. Tomou, não volta mais.”

Eu tomo.

Eu estou num lugar escuro onde toca música eletrônica alta, roçando em quinze pessoas ao mesmo tempo. Não estou bêbado, só sinto cheiro de cachaça no suor que resvala em mim vindo dos círculos exteriores da festa. Agarro uma menina e tento beijá-la. Sou empurrado por uma mão forte, endurecida por centenas de deadlifts.

Caio de quatro no chão da garagem. Atrás de mim há uma porta com um letreiro em neon. Ouço a batida abafada vinda do outro lado. O homem de capuz preto está logo à frente, encostado num carro azul com pintura descascada.

Noto pessoas de branco perambulando entre as pilastras. Sigo uma delas e o homem de preto me segue à mesma distância de trinta metros.

Estamos buscando a saída da garagem”.

Estou todo de branco. Noto setas no chão. Começo a segui-las e esbarro nos outros caminhantes. Uma delas é a mesma mulher que eu tentei beijar à força na festa. Os olhos são tão claros que brilham. Ela sorri para mim desta vez. Acabo esbarrando nela. A pele macia começa a produzir escamas e suas pálpebras piscam lateralmente como a de um crocodilo. Olha para mim e bufa. Atrás dela, desfocado, está o homem de capuz preto. Ele parece rir. A mulher volta à sua forma original e me chama. Eu recuso. Continuo seguindo as setas.

Chego numa porta de incêndio. Forço-a. Além dela, há um abismo vivo, com correnteza. Posso sentir sua profundidade. Passarei a eternidade caindo. Dou um passo para trás e tropeço.

Levanto-me e limpo minhas roupas. O homem de capuz preto está mais próximo. Resolvo encará-lo. Ele se mantém firme, com as mãos no bolso do jeans. Paro a um braço de distância dele e ele revela sua face. É um homem careca, enrugado, na casa dos 60 anos.

“Então, velho inimigo, há alguma coisa mais nessa garagem?”

O homem de preto dá um sorriso irônico e tira do bolso um kyosaku de ferro.

“Você me deve 500 flexões”.

 

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