Jogo ALFA

jogo alfa

Todo ano, na vila dos machos, há quinze gerações, realizava-se uma competição de arremesso de bolas de ferro. Funcionava da seguinte maneira: os limites do campo eram definidos por um trator que desmatava o milharal num círculo. Em seguida, um cortador de grama traçava círculos concêntricos com uma vara de milho de diferença entre os diâmetros, formando uma estrutura atômica limitada pelo milharal. No núcleo do “átomo”, ficava um número de bolas de ferro indivisível pelo número de competidores, e estes. Dessa maneira, não só era uma questão de força física, mas de dominação, uma vez que não haveria um número de bolas iguais para cada um. Haveria luta pelas bolas, mas sem pancadaria, por gentileza, sob risco de desclassificação.

Depois, era só atirar as bolas do centro para fora e ver quem conseguia atirar mais longe. Jogar uma bola no milharal era o equivalente a um home run do beisebol e a garantia de ser ALFA até o ano seguinte.

Ferdinando resolveu entrar na competição. Achava aquilo tudo muito poético.

O treino começou. Os competidores comiam claras de ovo cru depois do treino, quase uma superstição. A competição já começara. Num ritmo crescente de intensidade, eles feriam a moral alheia a cada lançamento de bola.

Ferdinando, no entanto, como seu xará touro, achava aquilo bonito. Ficava olhando as bolas ao invés de atirá-las, alisando-as. Analisava a estrutura atômica tão meticulosamente montada, e o milharal que a circundava.

O bullying foi tremendo.

Ferdinando passou a ir ao campo nas horas mais quentes, quando os outros competidores já tinham transformado os braços em geleia e perdido a voz na gritaria. Ferdinando ia para lá na surdina, com o pressuposto de que participaria da competição, só para ficar mexendo nas bolas e analisando o campo, circulando por ele, pensando em alguma poesia ou algo do tipo.

O dia chegou, é claro, e todos os competidores estavam um dedo maiores de braços e ombros, e os olhos um grau maior de predação. O primeiro se adiantou, urrou, emitiu palavrões que pouco afetaram os demais. Lançou. A bola quicou até o quarto círculo. Um lançamento imenso. Um círculo e meio antes do milharal. O segundo competidor foi mais silencioso, mas por pouco não chorou sangue. A bola estacou no terceiro círculo, mas subiu muito antes de cair. Um lance moral. Muito bem, amigão.

Ferdinando se propôs a lançar em seguida. Já virara uma atração. O palhaço. Não foi à bola com os antebraços e pernas titânicos, mas com a ponta dos dedos. Alisou a bola até encontrar os três buracos. Como numa bola de boliche. Ergueu-a assim, ao lado do corpo. Pisou na grama, da qual conhecia cada passada. Era para ali, na direção do pôr do sol. Deixou a bola cair e ela deslizou, desaparecendo no milharal.

Trapaça?

Ferdinando não se tornou um ALFA, mas acabou com aquele jogo para sempre.

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